Transparente
Estive hospedada em Paraty-RJ, por ocasião da Festa literária que ocorre na cidade todo ano. Qual não foi minha surpresa ao receber o convite para compor a programação oficial. O aceitei com entusiasmo! Muita gente festejou comigo. Minha Vó dizia que quem tem amigo não morre pagão.
Vivi momentos significativos. Durante a mesa principal, a imagem de Carolina Maria de Jesus estampou o meu peito, com a reprodução de uma das fotos de que mais gosto. Ela está sorrindo, prestes a embarcar num avião. Poder homenageá-la foi uma honra. Eu a amo tanto…
Na programação paralela, também estive ao lado de pessoas especiais. Aconteceram encontros há muito desejados. Tive a oportunidade de conhecer Nei Lopes, alguém que, através de sua obra, contribuiu para a minha formação. Foram incontáveis abraços e manifestações de carinho das quais nunca vou esquecer.
Quase duas semanas depois de ter retornado para São Paulo, recebi uma mensagem da gestão, informando que a pousada onde permaneci relatava que eu havia “levado um lençol e uma manta embora”. Fiquei tão espantada na hora que até ri. Minha Vó dizia que pobre ri à toa. Pelo que entendi, a pousada solicitava reembolso do valor correspondente aos itens apontados como ausentes no quarto onde estive, após a checagem padrão. A produção da Festa foi contatada por que era responsável pela minha estadia e me colocou a par da situação. Me disseram que duvidavam muito que isso houvesse realmente ocorrido. Porém, que se tivesse sido assim, eu só precisava confirmar e eles providenciariam o ressarcimento. Aparentemente, nada mais do que a necessidade de eliminar uma demanda pendente e partir para a próxima. Suponho que deva ser uma ocorrência corriqueira, dada a naturalidade com que me foi comunicada. Para mim? Um piano de cauda descendo uma ladeira de patins. Inacreditável.
Depois de, incrivelmente, me pegar afirmando que não, não, não e um milhão de vezes, não havia furtado nada, fui aconselhada a ficar tranquila. Relaxar. Tudo se resolveria. Montariam um dossiê em minha defesa, ia ficar tudo bem, eu podia dormir sossegada. Sim. Era noite. Minha Vó dizia que a noite requer cautela.
No entanto, desde o ocorrido, não consigo dormir direito, buscando estratégias que possam evitar que semelhante… eventualidade volte a acontecer.
No trecho de O céu para os bastardos que li durante a mesa da programação principal, a personagem resolve uma questão parecida optando por utilizar uma bolsa minúscula ao sair de determinado local, para não levantar suspeitas de que estivesse transportando algo que não lhe pertencia. Um recurso comum utilizado por quem convive com esses…incidentes. Durante a conversa a mediadora perguntou se uma cena parecida já tinha acontecido comigo. Respondi alegremente que não. Bem, se a conversa se desenvolvesse hoje, eu poderia responder tristemente que sim. Já aconteceu.
Planejo solicitar vistoria assistida nos quartos onde me hospedarei futuramente, antes de acertar a saída. Em viagens não dá pra carregar somente um porta-moedas. Pensei que o ideal seria ter uma mala… transparente.
Recebi pedidos de desculpas, sim. Pelo equivoco, pela condução desacertada, pelo incômodo, pela comunicação falha. Pela falta de assertividade, pelo desencontro de informações, pela demora no retorno. Pelo desconforto, pela gravidade. Acreditei na sinceridade de todos esses pedidos e os aceitei. Tanto que, em determinado momento, me flagrei elaborando como agir, de modo a não parecer julgadora, intolerante, injusta, transgressora do Pai Nosso, inflexível ou incompreensiva. Não deixei de pensar que somos todos passíveis de erros e procurei administrar o tempo para ouvir quem achou por bem se manifestar. Eu mesma não tenho muito mais a dizer.
Decidi compartilhar a experiência porque as Festas e Festivais, Feiras e acontecimentos literários seguirão ocorrendo e isso é muito bom! Desejo que se expandam! Que se realizem em todos os cantos do Brasil. Que alcancem o povo! E acredito que haverá mais pessoas como eu transitando por esses eventos. Nas curadorias, mediações. Nas mesas e, sobretudo, nas plateias. Se eu não acreditasse nisso, nem teria ido. Falo de pessoas que não considerariam meramente incômoda uma acusação de furto porque sabem muito bem que, no nosso caso, o tratamento em episódios como esse não é gentil, de modo que a gente se apavora mesmo. Pessoas que entendem que não há diferença entre ser seguido numa loja ou ser questionado, ainda que com alguma cordialidade, sobre um edredom desaparecido. Que entendem exatamente porque é que foi considerada a remota possibilidade de que podia ser que… talvez…quem sabe…
É preciso aprender a conviver com a gente nesses meios. Estamos aí!
Pensem o que quiserem os que julgarem o ocorrido irrelevante. E os que, por ventura, dirão: olha, já aconteceu comigo e não achei nada demais, só procedimento padrão… das duas, uma: ou são brancos ou pensam que são.
Minha Vó dizia que cada um sabe bem onde é que lhe aperta o sapato. Carolina Maria de Jesus por sua vez, elegeu o livro como a melhor invenção do homem. E Nei Lopes repete todos os dias nos meus fones de ouvido: Mesmo usados, moídos, pilados, vendidos, trocados, estamos de pé!
E é em vozes como as deles que eu baseio a minha vida. E sigo escrevendo.

revoltante! cada vez que vou a paraty me pergunto como a cidade pode ser aberta à literatura brasileira de verdade se é tão higienizada, branca, elitista. todas as vezes que entrei em um dos “restaurantes recomendados pela flip” tive uma experiência agridoce na boca, bem diferente do que vivenciei nas casas com programação paralela, nas mesas principais… mas sigamos ocupando espaços
"Procedimento padrão" por parte daqueles que sabemos quem são. Estamos de pé, seguiremos de pé. Você é gigante, Lilia: tem minha admiração, meu máximo respeito e apoio incondicional ✊🏾